Entrevista com Elton Minetto em Mais Que Senior

Posted on Aug 1, 2025

Introdução

Gerenciar um time técnico em constante evolução exige mais do que domínio de ferramentas: exige clareza de propósito, boas decisões arquiteturais e foco no que realmente gera valor para o negócio. Como CTO e Co-fundador da Harmo, essa é a lente pela qual enxergo tecnologia todos os dias.

Tive a honra de compartilhar um pouco dessa jornada na newsletter Mais Que Senior, em uma entrevista conduzida com sensibilidade e profundidade por um grande amigo, Elton Minetto. Falamos sobre liderança técnica, decisões estratégicas, dicas de carreira e trajetória.

Neste artigo, aprofundo alguns dos pontos abordados na entrevista, detalhando nossa stack, práticas e aprendizados práticos que sustentam a operação diária da Harmo. Se você lidera times técnicos, atua com cloud ou busca boas práticas em arquitetura e gestão de infraestrutura, essa leitura é pra você.

Conte um pouco sobre sua posição atual, como CTO. Que tipo de trabalho você faz geralmente?

Sou CTO e Co-fundador da Harmo, uma plataforma Martech AI-first que transforma feedbacks e dados operacionais em decisões inteligentes. Minha atuação é dividida entre frentes estratégicas e operacionais (cerca de 60/40), com foco em tecnologia, produto e dados.

Co-lidero a arquitetura de sistemas e lidero diretamente três especialistas, incluindo um Tech Manager que conduz o time de engenharia, atualmente com sete profissionais de diferentes níveis. Acompanho de perto o roadmap de produto e continuo atuando com código, especialmente em Golang, Python e aplicações de IA, áreas em que tenho mais profundidade.

Também estou à frente da integração de LLMs, IA generativa e pipelines de dados em larga escala. E sigo como revisor técnico ativo: nossa média gira em torno de 50 pull-requests por sprint, com cerca de 60 microsserviços em produção, rodando em K8s e Airflow.

Que tipo de impacto você sente que mais gera na sua posição atual? E como isso é diferente em relação a sua posição anterior?

Hoje meu impacto é sistêmico: construo os alicerces técnicos que permitem escalar o negócio com inteligência e sustentabilidade. Diferente de posições anteriores, onde o foco era na entrega individual, agora meu papel é potencializar a performance do time como um todo, garantindo alinhamento entre tecnologia, produto e estratégia.

Qual é o percentual de trabalho entre código e liderança que você desempenha hoje? 50/50? Passa mais tempo trabalhando com tecnologia/codando ou mais tempo liderando pessoas? Hoje minha atuação está quase equilibrada, com cerca de 40% dedicada ao código e 60% voltada à liderança. Sigo atuando tecnicamente por afinidade e por necessidade, especialmente nas frentes de IA, NLP e arquiteturas de dados mais complexas, mas meu foco principal está nas decisões estratégicas, no acompanhamento próximo dos times e na estruturação de processos técnicos que sustentem nosso crescimento.

Como é um dia normal na sua rotina? Ou como é uma semana normal para você? Quais são suas rotinas principais?

Minhas semanas são marcadas por cerimônias técnicas, revisões de arquitetura, mentorias, revisões de código e bastante atividade prática, sigo codando em frentes estratégicas, especialmente em features e arquiteturas voltadas a NLP, IA, LangChain e ML.

Reservo blocos de tempo para deep work técnico e acompanhamento próximo do roadmap de produto e dados. Também mantenho cadências com os especialistas do time, garantindo fluidez técnica, alinhamento com o negócio e evolução contínua da equipe.

Além disso, tenho rotinas regulares com os demais sócios, conselheiros e investidores, equilibrando a visão técnica com a visão de negócio e crescimento da empresa.

Como você mede seu sucesso? Quando somos pessoas desenvolvedoras de software é comum medirmos nosso sucesso pelo número de commits, pull requests, entregas realizadas. Isso mudou de alguma forma em sua posição atual?

Sim, mudou bastante. Mesmo no inicio de carreira, já buscava enxergar sucesso além de horas trabalhadas, commits ou linhas de código, mas foi com o tempo e com a experiência que essa visão amadureceu.

Antes, eu media meu sucesso por entregas concretas: features lançadas, melhorias de performance, soluções técnicas. Hoje, minha métrica é o impacto técnico e estratégico que consigo gerar: a performance do time, a sustentabilidade das decisões de arquitetura, a velocidade de aprendizado da organização e, principalmente, o valor que a tecnologia entrega para o negócio. Além, de avaliar o impacto em custos vs crescimento comercial.

Você participa das decisões de tecnologia ou arquitetura? Como gerencia essa influência em relação aos demais times? Você toma boa parte das decisões ou guia os times para que eles cheguem às conclusões?

Sim, participo ativamente das decisões de tecnologia e arquitetura. Costumo guiar o time em discussões técnicas, sempre priorizando debates estruturados e incentivando o ownership das decisões. Evito ser o gargalo ou o “dono da verdade”, busco atuar como facilitador, tomando decisões quando necessário, mas sempre com base em construção coletiva.

Mesmo com o crescimento exponencial do negócio, acredito que a visão estratégica precisa estar presente também no nível técnico. É essa presença que garante que as decisões do dia a dia estejam alinhadas com nossa bússola de médio-longo prazo.

Que soft-skills você percebe que fazem a diferença na sua posição? E como eles diferem da posição anterior? Costumo enxergar habilidades técnicas ou comportamentais em dois grupos: as treináveis e as que vêm de forma mais natural. Me esforço para desenvolver continuamente as treináveis que geram impacto direto no negócio, mas também aprendi a valorizar e canalizar as que já fazem parte do meu perfil, como criatividade e empatia.

Com a maturidade profissional e como empreendedor, percebi que as soft-skills passaram a ter um papel central. As que mais fazem diferença para mim hoje são: escuta ativa, clareza e objetividade na comunicação, gestão de conflitos e leitura de cenário. Antes, meu foco era resolver problemas técnicos diretamente. Hoje, minha principal missão é criar os contextos certos para que outras pessoas consigam resolver com excelência, e isso exige inteligência relacional e liderança com propósito.

Você dedica tempo para mentorar as demais pessoas dos times?

Sim, e considero isso uma das partes mais gratificantes do papel de liderança. No dia a dia, as mentorias acontecem de forma natural, nos rituais, revisões técnicas e discussões de arquitetura. Além disso, mantenho momentos dedicados de 1:1 com os especialistas e apoio diretamente profissionais mais plenos e juniores, incentivando tanto o desenvolvimento técnico quanto o comportamental.

Acredito que as mentorias aceleram o amadurecimento técnico, cultural e emocional do time. Sou alguém que gosta de aprender, ensinar e trocar constantemente. Para mim, o verdadeiro motor da evolução é o exemplo, e liderar pelo exemplo é o que mais inspira e transforma.

Como CTO em algum momento a empresa começa a crescer e é necessário tomar uma decisão entre a parte técnica e as demais demandas de negócio/gestão. Como você está se preparando para esse momento de decisão? Você se imagina seguindo pelo caminho técnico ou de gestão/negócio?

Me vejo em uma posição híbrida, com forte raiz técnica e visão estratégica. Gosto de construir, resolver problemas complexos, transformar dados em decisões inteligentes e estruturar times de alta performance. Mesmo com o crescimento da Harmo, meu objetivo é seguir como uma liderança técnica que conecta engenharia ao negócio e impulsiona inovação com propósito.

Acredito que escalar também é saber colaborar. Por isso, visualizo uma parceria próxima com alguém na cadeira de VP de Engenharia, permitindo que eu mantenha o foco em arquitetura, IA e visão de produto, enquanto garantimos excelência na operação e na gestão do time.

Que dicas você pode dar para quem está decidindo se continua o caminho de desenvolvimento ou se deve empreender?

Comecei a empreender aos 21 anos, após mais de cinco anos de carreira como desenvolvedor. O que aprendi até aqui é que não existe uma resposta certa ou um único caminho para o sucesso, mas sim autoconhecimento, consistência e coragem para se adaptar em cenários diversos.

Se você gosta de resolver problemas complexos com profundidade técnica, talvez o caminho de especialista seja o mais natural, e é totalmente possível crescer nessa trilha sem ir para a gestão. Se, por outro lado, você se interessa por liderar pessoas, estruturar times e facilitar o crescimento de outros, a trilha de gestão pode ser muito recompensadora. Deixando claro, que até mesmo um especialista, precisará ensinar e ser referência para outras pessoas e áreas.

Já a questão de empreender, exige um perfil diferente: é preciso ter visão de longo prazo, capacidade de lidar com incertezas, adaptação constante, apetite a risco e resiliência para errar e aprender rápido. Se você sente prazer em transformar problemas reais com tecnologia, não tem medo de sair da zona de conforto e quer gerar impacto direto, empreender pode ser um caminho transformador.

Minha dica é: teste, se observe e não tenha medo de mudar de rota (erre rápido e mude rápido). Já vi excelentes devs virarem grandes líderes, líderes voltarem a se especializar e até mesmo especialistas fundarem empresas de sucesso. O mais importante é ser intencional com seus passos.

Você lembra de algum conselho ou dica que recebeu quando entrou nesta posição e que foi importante para você?

Venho de uma cultura afro-indígena e, desde muito cedo, aprendi a ser meu próprio líder e a valorizar quem trilhou caminhos antes de mim. Isso moldou minha visão sobre liderança e me ajudou a entender que meu foco natural sempre foi a parte técnica e estratégica.

Ao assumir a cadeira de CTO, tomei uma decisão importante: treinei uma pessoa sênior com perfil de governança para assumir a liderança direta do time, cuidando da gestão de pessoas, carreira e cultura. Isso me permitiu atuar com mais profundidade técnica e arquitetural, onde realmente gero valor.

Um conselho que me marcou, e ainda guia minha trajetória, foi:

“Você não vai escalar se tentar ser o melhor em tudo. Foque em criar contextos para que outras pessoas brilhem.”

Essa frase consolidou minha transição de desenvolvedor para uma cadeira executiva com consciência e propósito.

Quais fontes você usa para se especializar? Blogs, livros, canais do Youtube.

Comecei a estudar computação em 2008 e programar em 2010, aos 14 anos. Desde então, desenvolvi um perfil autodidata forte. Me aprofundo por meio de blogs técnicos (como Medium, Towards Data Science, dev.to e ByteByteGo), papers acadêmicos, documentação oficial e livros técnicos, especialmente nas áreas de arquitetura, dados e IA. Também acompanho canais no YouTube focados em engenharia de dados e exatas (matemática/estatística). Além disso, valorizo muito trocar experiências com profissionais da área, e busco ativamente conversas para benchmarking e aprendizado contínuo.

Onde as pessoas podem te encontrar? Site, Linkedin, Twitter, etc.

Sou acessível e ativo pelo LinkedIn, e também mantenho um blog técnico onde compartilho experiências com IA, golang, python, arquitetura distribuída e dados.

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Veja a entrevista na newsletter: maisquesenior.dev